Lascívia, em passagens do Novo Testamento, descreve uma conduta desenfreada que despreza limites morais. A palavra pode aparecer traduzida como libertinagem ou devassidão. Não é sinônimo automático de sentir atração, nem um rótulo para qualquer comportamento de que alguém discorde: seu sentido deve ser examinado nas advertências concretas em que aparece.
O que significa lascívia na Bíblia?
Para entender o que é lascívia na Bíblia, precisamos voltar ao grego original. A palavra traduzida como “lascívia” nas versões em português vem do termo grego aselgeia, que descreve uma conduta desenfreada, sem autocontrole e sem vergonha. O termo enfatiza conduta e disposição desenfreadas; não exige uma separação absoluta entre desejos interiores e ações exteriores. Em Marcos 7:21–23, a lascívia aparece entre os males que procedem do coração.
O léxico de Thayer, verbete aselgeia, reúne sentidos ligados a excesso, licenciosidade e falta de contenção. Esse campo de sentido ajuda a comparar traduções, mas não permite somar todas as definições e aplicá-las a cada ocorrência. Em Marcos 7, o foco está nos males procedentes do coração; em Gálatas 5, no contraste entre obras da carne e vida no Espírito.
A palavra não se reduz necessariamente a um ato sexual específico. Isso também não a transforma num termo para qualquer falha moral: embriaguez, idolatria e outros excessos podem aparecer ao lado dela nas listas bíblicas, sem serem todos sinônimos. “Desrespeitar autoridades”, por exemplo, não é uma definição suficiente de lascívia.
Relação com textos do Antigo Testamento
Provérbios 7 adverte contra a sedução para o adultério; Gênesis 19 narra uma tentativa de violência contra os visitantes de Ló. Esses textos ajudam a discutir conduta sexual e violência, mas não devem ser usados como se todos empregassem o mesmo termo grego do Novo Testamento. Também não é necessário supor orgias ou prostituição cultual generalizadas para explicar o conceito.
Lascívia no Novo Testamento
No Novo Testamento, o termo lascívia aparece com mais frequência, sempre em contextos de advertência. Vamos ver alguns versículos principais:
- Gálatas 5:19-21: Paulo lista a lascívia entre as obras da carne, afirmando que “os que praticam tais coisas não herdarão o Reino de Deus”. Isso mostra a gravidade do pecado.
- 2 Coríntios 12:21: O apóstolo expressa temor de encontrar entre os crentes “imundícia, prostituição e lascívia” que não foram abandonadas, indicando que a igreja primitiva também enfrentava esse desafio.
- 1 Pedro 4:3: Pedro exorta os cristãos a abandonarem a lascívia praticada no passado, antes da conversão, como parte de uma vida nova em Cristo.
- Efésios 4:19: Paulo descreve os ímpios que “se entregaram à lascívia” para praticar toda sorte de impureza, mostrando a progressão do pecado.
Em Efésios 4:17–24, a advertência é acompanhada de um contraste: deixar a antiga maneira de viver e aprender uma vida renovada em Cristo. Em Gálatas 5:19–23, a lista de obras da carne é seguida pelo fruto do Espírito, que inclui domínio próprio. O objetivo não é apenas dar nome ao erro, mas apresentar a mudança de conduta esperada.
Diferença entre lascívia e outros pecados
Muitas pessoas confundem lascívia com luxúria, adultério ou fornicação. A comparação abaixo é didática: esses termos podem se sobrepor, e seu sentido depende do contexto. Não formam uma divisão rígida entre interior e exterior:
| Termo | Definição | Relação com a lascívia |
|---|---|---|
| Luxúria | Desejo intenso e desordenado, geralmente sexual. | Luxúria destaca o desejo desordenado; lascívia enfatiza a falta de freios morais, sem excluir a disposição interior. |
| Adultério | Relação sexual de uma pessoa casada com outra que não seu cônjuge. | O adultério é um ato específico; a lascívia é um estado de conduta devassa que pode incluir adultério. |
| Fornicação | Termo de tradução e uso religioso cujo alcance deve ser verificado na passagem; frequentemente ligado à imoralidade sexual. | Não convém opor rigidamente um ato a uma atitude: os termos podem se sobrepor, mas a lascívia destaca o caráter desenfreado. |
| Impureza | Estado de contaminação moral, incluindo pensamentos e ações impuras. | Impureza abrange a dimensão moral de pensamentos e ações; lascívia destaca seu caráter desenfreado. |
Em resumo, a lascívia envolve descontrole moral e falta de pudor, manifestados em atitudes e condutas. A preocupação com pensamentos e intenções faz parte da aplicação desse ensino ao coração, não de uma divisão rígida entre tipos de pecado.
Sentir desejo é o mesmo que praticar lascívia?
Não. A presença de desejo ou atração não basta para aplicar esse termo. O ensino bíblico examina também o que se cultiva e se pratica: a intenção de adulterar em Mateus 5:27–28, a recusa de limites e o modo de tratar o outro. A aplicação deve avaliar a conduta concreta, sem presumir a disposição moral de uma pessoa apenas por sua aparência.
Consequências da lascívia segundo a Bíblia
A Bíblia é clara ao mostrar que a lascívia traz sérias consequências espirituais e práticas. Vamos listar algumas:
- Separação de Deus: A lascívia é uma obra da carne que impede a herança do Reino de Deus (Gálatas 5:21). A advertência se dirige à prática das obras da carne; deve ser lida junto ao chamado a viver pelo Espírito.
- Deterioração moral: Tratar o outro como objeto e ignorar limites pode ferir a confiança e os relacionamentos. Essa é uma aplicação prática do ensino, não uma consequência idêntica narrada em todos os casos.
- Perda do testemunho: Um cristão que cai na lascívia compromete seu testemunho perante o mundo e a igreja, causando escândalo.
- Necessidade de arrependimento: A Bíblia não deixa ninguém sem esperança. Ela chama ao arrependimento e à purificação através de Jesus Cristo (1 João 1:9).
Como vencer a lascívia? Orientações bíblicas
As orientações bíblicas unem mudança de hábitos, responsabilidade e dependência de Deus:
- Renove a mente: Romanos 12:2 chama à transformação pela renovação da mente. Estudar a Bíblia diariamente muda nossa perspectiva e nos fortalece contra o pecado.
- Ande no Espírito: Gálatas 5:16 diz: “Andai em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne”. O Espírito Santo produz em nós frutos como domínio próprio, que é o oposto da lascívia.
- Fuja da tentação: 1 Coríntios 6:18 exorta: “Fugi da prostituição”. No contexto, Paulo confronta a união com uma prostituta. Evitar situações que alimentem condutas incompatíveis com a fé é uma aplicação desse princípio.
- Busque responsabilidade: Viver em comunidade cristã, com irmãos que nos ajudam e nos corrigem, é essencial (Tiago 5:16).
- Ore e confesse: A confissão integra o caminho de arrependimento; não é uma fórmula que dispensa mudança de conduta. Deus é fiel para nos purificar.
Como exemplo de aplicação, alguém que insiste em mensagens de teor sexual depois de uma recusa precisa reconhecer o desrespeito e interromper a conduta. O problema não é apenas o sentimento que a pessoa diz experimentar, mas a decisão de ignorar o limite do outro. Acompanhamento responsável pode ajudar, sem exposição pública da intimidade.
Advertência sem perder a possibilidade de mudança
O sentido bíblico se torna mais claro quando se preserva o contraste: conduta sem freios, de um lado; domínio próprio e renovação, de outro. As advertências de Gálatas e Efésios não autorizam rotular pessoas pela aparência ou tratar todo desejo como culpa. Elas chamam à responsabilidade por intenções e atitudes, enquanto 1 João 1:9 relaciona confissão, perdão e purificação.
Igor Zomer é o responsável pelo Portal Voz da Fé, um site dedicado à publicação de conteúdos sobre a Bíblia, personagens bíblicos, contexto das Escrituras e temas relacionados à fé cristã.

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