A Bíblia foi escrita principalmente em hebraico, aramaico e grego. Na Bíblia Hebraica, predomina o hebraico, com trechos em aramaico; os 27 livros do Novo Testamento foram transmitidos em grego koiné. O conjunto de livros considerado também importa: Sabedoria, presente no Antigo Testamento católico, foi composto em grego. Identificar essas diferenças evita confundir língua original, expressão preservada e tradução posterior.
O Antigo Testamento: hebraico, aramaico e diferenças de cânon
A maior parte do Antigo Testamento foi escrita em hebraico bíblico, a língua dos antigos israelitas. O hebraico predomina nos livros do Antigo Testamento e possui uma estrutura e um vocabulário ricos em simbolismo e significado. Na Bíblia Hebraica, pequenas porções foram escritas em aramaico, uma língua irmã do hebraico. O escopo do cânon também importa: a Bíblia Católica inclui livros deuterocanônicos, entre eles Sabedoria, composto em grego. Por isso, a descrição do Antigo Testamento apenas como hebraico e aramaico precisa dessa delimitação.
As porções aramaicas incluem Daniel 2:4b–7:28, Esdras 4:8–6:18 e 7:12–26, além de Jeremias 10:11. Em Esdras, parte desse material reproduz correspondência e documentos administrativos. Em Daniel, o bloco também inclui narrativas e uma visão; portanto, sua extensão não pode ser explicada apenas como transcrição de decretos estrangeiros.
O Novo Testamento: Grego Koiné
O grego koiné era amplamente usado no Mediterrâneo oriental. É a língua dos textos do Novo Testamento que fundamentam suas traduções. Isso não significa que todas as conversas narradas tenham ocorrido em grego, nem permite reconstruir, a partir da língua do livro, cada palavra falada numa cena.
Marcos preserva expressões aramaicas e oferece sua explicação: “Talita cumi” em Marcos 5:41, “Efatá” em 7:34 e o clamor de Jesus em 15:34. Essas expressões mostram a presença do aramaico no ambiente narrado, mas o evangelho que as registra é grego. Não é necessário supor que o leitor domine aramaico: o próprio autor traduz essas falas.
O grego possui diferentes palavras relacionadas ao amor, como ágape, philia, storge e eros. A divisão popular entre amor divino, amizade, afeto familiar e amor romântico pode servir como introdução, mas não forma quatro categorias rígidas e exclusivas nem define automaticamente o sentido de cada ocorrência. Como em português, o contexto determina as nuances.
E as traduções antigas? A Septuaginta e a Vulgata
A Septuaginta reúne antigas traduções gregas das Escrituras judaicas. O processo começou com a Torá/Pentateuco no Egito, no século III a.C.; não se deve imaginar que todo o conjunto foi traduzido numa única ocasião. O estudo publicado pela Oxford sobre a Septuaginta situa a tradução da Torá em Alexandria e acompanha sua recepção posterior. Ela é importante para comparar o texto hebraico e sua interpretação em grego, além do uso de Escrituras gregas pelos primeiros cristãos.
A Vulgata pertence à tradição latina e está associada ao trabalho de tradução e revisão de Jerônimo, entre os séculos IV e V. Não é a língua original da Bíblia nem uma obra inteiramente traduzida por uma única pessoa. A carta sobre Jerônimo publicada pelo Vaticano explica seu trabalho com o hebraico e o grego. Distinguir esses níveis ajuda: hebraico, aramaico e grego dizem respeito aos textos de base; Septuaginta e Vulgata são testemunhos antigos de tradução e transmissão.
Por que isso importa para a sua leitura da Bíblia hoje?
Saber em quais línguas a Bíblia foi escrita não é apenas uma curiosidade histórica – tem implicações práticas para sua leitura diária. As diferenças entre traduções muitas vezes surgem porque palavras hebraicas ou gregas podem ter múltiplos significados. Um exemplo clássico é a palavra “amor” no grego, que já mencionamos. Em 1 Coríntios 13, Paulo usa ágape e descreve o amor como paciente e bondoso, sem egoísmo. Essas qualidades vêm do contexto da passagem; não decorrem de uma distinção rígida entre tipos de amor.
O verbo grego relacionado a ágape aparece em João 3:19 para o amor pelas trevas. Portanto, não basta encontrar a palavra para concluir que o texto fala de amor divino ou moralmente bom. Em 1 Coríntios 13, são as descrições de paciência, bondade e ausência de egoísmo que explicam o amor elogiado por Paulo.
O mesmo cuidado vale para termos hebraicos como shalom e hesed. Uma palavra pode ser traduzida de formas diferentes em contextos diferentes; isso não significa que todos os sentidos do dicionário estejam presentes em cada versículo. Tampouco a existência de nuances torna uma tradução portuguesa incapaz de comunicar o texto.
Um caminho prático para comparar traduções
Primeiro, leia o parágrafo inteiro. Depois, compare duas traduções e identifique a diferença exata: mudou uma palavra, a construção da frase ou a interpretação de uma expressão? Consulte o prefácio e as notas, que podem explicar escolhas de tradução e variantes de manuscritos. Só então recorra a um léxico ou comentário sobre o termo no trecho específico.
Um interlinear ajuda a localizar palavras, mas não substitui o estudo de gramática nem oferece, sozinho, uma tradução natural. Evite montar uma interpretação escolhendo, entre vários sentidos possíveis, apenas o que combina com uma ideia anterior. A descrição do trabalho de tradução da Biblica mostra que traduzir envolve equipes e textos de base, não apenas equivalências palavra por palavra.
É preciso aprender os idiomas para ler a Bíblia?
Uma dúvida comum entre leitores que pesquisam em quais línguas a Bíblia foi escrita é se é indispensável aprender hebraico ou grego para compreender as Escrituras. Felizmente, a resposta é não. As traduções modernas de qualidade permitem que qualquer pessoa entenda a mensagem central da Bíblia com clareza, oferecendo acesso ao conteúdo essencial da fé cristã sem exigir conhecimento dos idiomas originais.
O estudo dos idiomas permite investigar construções e escolhas de tradução com maior autonomia. Para quem não os conhece, a prática mais útil é ler o contexto, comparar versões e usar notas que identifiquem suas fontes. Uma explicação sobre “o original” merece atenção especial quando promete resolver todo um debate com apenas uma palavra.
Três línguas, diferentes camadas de leitura
A resposta breve — hebraico, aramaico e grego — ganha precisão quando se especifica o livro e o cânon. Expressões aramaicas dentro de um evangelho grego não mudam a língua do livro; uma tradução latina não se torna seu original. Essas distinções ajudam a usar ferramentas de estudo para compreender a passagem, sem atribuir aos idiomas um significado secreto que o contexto não sustenta.
Igor Zomer é o responsável pelo Portal Voz da Fé, um site dedicado à publicação de conteúdos sobre a Bíblia, personagens bíblicos, contexto das Escrituras e temas relacionados à fé cristã.

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