As referências diretas ao dízimo no Novo Testamento estão em Mateus 23:23, Lucas 11:42, Lucas 18:12 e Hebreus 7:1–10. Outros textos, como 1 Coríntios 9 e 2 Coríntios 8–9, tratam de contribuição e sustento, mas não fixam ali uma porcentagem. Distinguir esses dois grupos evita apresentar toda passagem sobre oferta como mandamento de dízimo.
As Principais Passagens do Dízimo no Novo Testamento
Mateus 23:23 e Lucas 11:42: prática e justiça
Jesus critica o zelo pelo dízimo de pequenas ervas quando acompanhado de negligência moral. Mateus menciona justiça, misericórdia e fidelidade; Lucas, justiça e amor de Deus. A ordem de não omitir uma coisa ao praticar a outra faz parte dessa repreensão a líderes religiosos. O texto não reduz fidelidade a um pagamento, e sua aplicação como regra percentual para a igreja é justamente um ponto de interpretação entre cristãos.
Lucas 18:9–14: o fariseu que se gaba de dizimar
O versículo 12 registra a fala do fariseu, não uma ordem de Jesus ao leitor. A parábola é dirigida aos que confiam na própria justiça e desprezam os outros (18:9). O contraste com o publicano trata de autossuficiência, misericórdia e justificação; citar apenas o dízimo perde o argumento da história.
Hebreus 7: Abraão, Melquisedeque e sacerdócio
Hebreus 7:1–10 retoma Gênesis 14:18–20. O autor destaca que Abraão entregou a décima parte e recebeu a bênção de Melquisedeque, desenvolvendo uma comparação com Levi e seu sacerdócio. O restante do capítulo chega à superioridade e permanência do sacerdócio de Cristo. Há aplicação posterior desse episódio à contribuição, mas a passagem não contém uma ordem direta para que a igreja recolha dez por cento.
Oferta e sustento: textos relacionados, mas distintos
1 Coríntios 9:13–14 compara o sustento de quem serve no templo ao direito de sustento de quem anuncia o evangelho. Paulo explica em 9:15–18 sua decisão de não usar esse direito naquele contexto. O assunto é a legitimidade do sustento ministerial, não um cálculo percentual.
1 Coríntios 16:1–4 orienta uma coleta para os santos, com separação regular de recursos conforme a prosperidade de cada um e pessoas aprovadas para transportar a ajuda. Em 2 Coríntios 8–9, Paulo desenvolve essa assistência: disposição, capacidade e cuidado com a administração acompanham a generosidade.
“Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria.” (2 Coríntios 9:7)
A frase de 2 Coríntios 9:7 deve ser lida junto de 8:12–14: a oferta é considerada segundo o que a pessoa tem, e a intenção não é aliviar uns impondo sobrecarga aos outros. Em 8:20–21, Paulo também se preocupa com a transparência diante de Deus e das pessoas. Alegria não dispensa responsabilidade de quem recebe e administra.
Por que os cristãos chegam a conclusões diferentes?
Na interpretação adotada neste artigo, a legislação do dízimo não é imposta à igreja como percentual obrigatório; as cartas orientam uma contribuição generosa, planejada e proporcional. Trata-se de uma conclusão teológica a partir dos textos, não de uma frase bíblica que diga literalmente “o dízimo foi substituído”. Números 18:21–24 situa o dízimo no sustento dos levitas; transferir esse arranjo diretamente à igreja requer um argumento de continuidade.
A leitura favorável à continuidade destaca o exemplo de Abraão, anterior à Lei de Moisés, e as palavras de Jesus sobre não omitir a prática. Como exemplo documentado, a crença adventista sobre mordomia inclui devolver dízimos e dar ofertas, distinguindo ambos. A leitura que não exige o percentual ressalta a finalidade sacerdotal de Hebreus 7 e a ausência desse cálculo nas instruções de Paulo. Reconhecer os argumentos não obriga a fingir que todos os cristãos chegaram à mesma conclusão.
O Que Jesus Ensinou Sobre Contribuição Financeira?
O coração vale mais do que o valor oferecido
Marcos 12:41–44 e Lucas 21:1–4 contrastam grandes valores com as duas pequenas moedas da viúva, que entrega seu sustento. A cena vem depois da denúncia de escribas que devoram as casas das viúvas (Marcos 12:38–40). Há leituras que enfatizam sua entrega e outras que destacam a crítica à exploração. Em nenhum caso o relato deve ser convertido automaticamente em ordem para uma pessoa entregar o necessário à sobrevivência.
Tesouros no céu
Mateus 6:19–24 relaciona tesouro, coração e lealdade a Deus. A passagem questiona a centralidade das riquezas; não promete retorno financeiro proporcional a uma contribuição. A oferta pode expressar serviço e generosidade, mas não funciona como compra de proteção ou de prosperidade.
Uma dúvida prática de leitura
Existe diferença entre dízimo e oferta?
Dízimo designa a décima parte. Oferta é um termo mais amplo para aquilo que se apresenta ou contribui e não indica, por si só, dez por cento. Ao ler uma passagem, pergunte quem contribui, para quem, com qual finalidade e se o autor está narrando um episódio, estabelecendo uma regra ou desenvolvendo uma comparação. Esses critérios são mais precisos do que substituir as palavras uma pela outra.
Conclusão: localizar é o primeiro passo; interpretar é o seguinte
Mateus e Lucas situam o dízimo na crítica à hipocrisia e à autossuficiência; Hebreus o utiliza no argumento sobre sacerdócio. As cartas de Paulo acrescentam sustento, assistência, proporcionalidade e transparência. A posição adotada aqui favorece generosidade responsável sem percentual obrigatório, mantendo clara a diferença entre esse entendimento, o que cada passagem diz e a prática de comunidades que defendem a continuidade do dízimo.
Igor Zomer é o responsável pelo Portal Voz da Fé, um site dedicado à publicação de conteúdos sobre a Bíblia, personagens bíblicos, contexto das Escrituras e temas relacionados à fé cristã.

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