Estêvão, Nabote, Acã, o filho de Selomite e o homem que recolheu lenha no sábado estão entre os personagens dos relatos de apedrejamento. Paulo também foi apedrejado, mas sobreviveu. Já a mulher acusada de adultério e Jesus aparecem em episódios de ameaça ou tentativa, sem morte por pedras. Distinguir esses resultados evita colocar acontecimentos diferentes na mesma lista.

Prescrição, execução e violência injusta

Na legislação de Israel, algumas transgressões recebiam pena de apedrejamento. Deuteronômio 17:2–7 trata de idolatria e exige investigação e mais de uma testemunha; as testemunhas iniciavam a execução. Esse procedimento legal não significa que todo apedrejamento narrado na Bíblia tenha sido um julgamento justo.

A pergunta decisiva em cada relato é: o texto prescreve uma pena, conta sua execução ou denuncia violência contra alguém? Nabote é o exemplo claro de uma acusação fabricada. Não é necessário supor uma evolução histórica linear da prática para reconhecer essas diferenças.

Estevão: o primeiro mártir cristão

O relato de Estêvão está em Atos 7:54–60. Ele integra os sete escolhidos para o serviço da comunidade em Atos 6 e é tradicionalmente reconhecido como o primeiro mártir cristão.

Após um discurso poderoso diante do Sinédrio, no qual expôs a história de Israel e apontou a resistência do povo em seguir a Deus, os líderes religiosos se enfureceram. Então o arrastaram para fora da cidade e o apedrejaram.

O que torna essa história tão impactante é a atitude de Estevão nos momentos finais: ele orou pedindo que Deus recebesse seu espírito e clamou: “Senhor, não lhes imputes este pecado” (Atos 7:60). Esse gesto de perdão ecoa as palavras de Jesus na cruz e mostra a profundidade da graça cristã.

Estevão é lembrado como o primeiro mártir da igreja cristã, e seu testemunho inspirou gerações de cristãos que enfrentariam perseguições semelhantes.

Personagens do Antigo Testamento que foram apedrejados

Os episódios abaixo têm contextos distintos: transgressão da aliança, blasfêmia e acusação falsa.

Acã e sua família

Em Josué 7, após a vitória em Jericó, Acã desobedeceu à ordem divina de não tomar nada da cidade amaldiçoada. Ele escondeu uma capa babilônica, prata e ouro. Quando Israel foi derrotado em Ai, Deus revelou o pecado, e Acã foi apedrejado junto com sua família no vale de Acor, nome associado à perturbação causada por esse episódio.

O blasfemo filho de Selomite

Em Levítico 24:10-23, um homem que blasfemou o nome de Deus durante uma briga foi levado a Moisés. Por ordem do Senhor, toda a congregação o apedrejou fora do acampamento. O relato reúne o caso concreto e a formulação da pena nos versículos 15–16.

Nabote

Em 1 Reis 21, Nabote possuía uma vinha que o rei Acabe desejava. Quando Nabote recusou vender sua herança familiar, Jezabel tramou sua morte. Ela convocou duas testemunhas falsas que acusaram Nabote de blasfemar contra Deus e contra o rei. Como resultado, Nabote foi apedrejado fora da cidade, e Acabe tomou posse da vinha. Essa história denuncia a corrupção e o abuso de poder.

Prescrição legal sobre o culto a Moloque

Levítico 20:2-5 determina que qualquer israelita ou estrangeiro que sacrificasse seus filhos a Moloque deveria ser apedrejado. Essa passagem é uma prescrição legal, não o relato de uma execução específica. A entrega de filhos a Moloque era vista como uma grave traição à aliança com Deus e uma contaminação do santuário.

Casos de apedrejamento mencionados no Novo Testamento

Além de Estevão, outras passagens do Novo Testamento mencionam apedrejamentos ou tentativas de apedrejamento.

Paulo apedrejado em Listra

Em Atos 14:19–20, Paulo foi apedrejado em Listra por judeus que vieram de Antioquia e Icônio. Eles o arrastaram para fora da cidade, pensando que ele estava morto. Mas os discípulos o cercaram, e ele se levantou e voltou para a cidade. No dia seguinte, partiu com Barnabé para Derbe. Essa experiência mostra a resiliência do apóstolo e seu compromisso com o evangelho, apesar das perseguições.

Jesus e a mulher adúltera

João 8:1–11 relata uma acusação e uma ameaça, não um apedrejamento consumado. Os escribas e fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério e disseram a Jesus: “Moisés nos mandou apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?”

Jesus respondeu com uma frase que ecoa até hoje: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.” Um a um, os acusadores foram saindo, começando pelos mais velhos. Jesus então disse à mulher: “Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.”

O próprio relato apresenta a pergunta como armadilha contra Jesus (8:6). Seu desfecho reúne a não condenação da mulher e o chamado a abandonar o pecado; não deve ser usado isoladamente como história completa da legislação penal.

O apedrejamento de Jesus foi tentado?

Sim, em João 10:30–39, os judeus pegaram pedras para apedrejar Jesus depois que ele declarou: “Eu e o Pai somos um.” Eles entenderam essa afirmação como blasfêmia, pois Jesus se igualava a Deus. No entanto, Jesus escapou, e o apedrejamento não ocorreu. Essa tentativa mostra como os líderes religiosos interpretavam suas palavras à luz da lei mosaica.

Uma nota textual ajuda a leitura de João 8: a edição NIV informa que João 7:53–8:11 não consta dos manuscritos mais antigos e de muitas outras testemunhas antigas. Algumas edições, por isso, destacam a passagem com colchetes ou notas. Esse dado deve acompanhar seu uso, sem confundir transmissão do texto com o resultado do episódio narrado.

O homem que recolheu lenha no sábado

Números 15:32–36 relata a detenção de um homem encontrado recolhendo lenha no sábado, a consulta sobre a decisão e sua morte por apedrejamento fora do acampamento. Ele não recebe nome. É um caso efetivo de execução, mas a passagem não afirma que tenha sido o primeiro apedrejado de toda a história bíblica.

Como comparar esses relatos sem confundi-los

O caso de Nabote mostra o uso de falsas testemunhas para encobrir um abuso de poder; o de Estêvão descreve perseguição e seu pedido de perdão. Paulo sobrevive, enquanto a ameaça contra a mulher não é executada. Essas diferenças são essenciais: sofrer violência não prova culpa, e mencionar uma pena não comprova que alguém tenha sido executado.

Esta seleção reúne casos representativos, não um catálogo exaustivo. Para aprofundar cada um, leia a unidade indicada e observe quem acusa, o que o narrador afirma e qual é o desfecho. Assim, a reflexão sobre justiça e misericórdia permanece ligada ao texto, sem transformar todos os episódios numa mesma lição genérica.


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