Não existe um único tradutor da Bíblia. A resposta depende do idioma, da época e da edição: João Ferreira de Almeida está ligado a uma importante tradição em português, Jerônimo à tradução e revisão de textos latinos, e muitas versões atuais são trabalhos de comissões. Distinguir tradução, revisão e edição ajuda a identificar quem fez a Bíblia que você tem em mãos.
As primeiras traduções: dos manuscritos originais ao grego e latim
A Septuaginta começou com a tradução da Torá para o grego por estudiosos judeus em Alexandria, no século III a.C.; o conjunto de livros gregos se formou em etapas. Não foi a tradução de toda a Bíblia cristã, que ainda não existia como coleção naquele período. A história dos setenta ou setenta e dois tradutores pertence à tradição sobre sua origem, e não deve ser apresentada como comprovação de que traduções independentes ficaram idênticas. Para o desenvolvimento da coleção, veja Gilles Dorival, The Septuagint from Alexandria to Constantinople.
O trabalho de Jerônimo também envolveu etapas. Ele revisou os Evangelhos latinos com o incentivo de Dâmaso e depois traduziu grande parte do Antigo Testamento a partir do hebraico. Reduzir a Vulgata a uma Bíblia inteira traduzida de uma só vez por encomenda papal apaga essa diferença. A carta Scripturae Sacrae affectus descreve a trajetória dessas revisões e traduções.
A Septuaginta e a Vulgata exerceram grande influência na história das traduções. Contudo, não foram a base textual de quase todas as versões europeias: diversas traduções recorreram diretamente ao hebraico, aramaico e grego, como os exemplos apresentados a seguir.
A Bíblia em línguas europeias: Lutero, Tyndale e a Reforma
Com a Reforma Protestante no século XVI, a demanda por Bíblias em línguas vernáculas (faladas pelo povo) explodiu. Martinho Lutero traduziu a Bíblia para o alemão entre 1522 e 1534, usando o texto grego de Erasmo e o hebraico massorético. Seu trabalho ampliou a circulação das Escrituras em alemão e teve influência importante sobre a língua escrita. Lutero foi perseguido, mas seu trabalho inspirou reformadores em toda a Europa.
Na Inglaterra, William Tyndale produziu uma tradução inglesa do Novo Testamento a partir do grego, publicada integralmente em 1526; não chegou a concluir a tradução de toda a Bíblia. Tyndale pagou com a vida – foi executado por heresia – mas seu trabalho serviu de base para a famosa King James Version (1611). Outros tradutores importantes incluem Jacques Lefèvre d’Étaples, ligado à tradução francesa da Bíblia, e Casiodoro de Reina, responsável pela tradução espanhola conhecida como Bíblia do Oso (1569). Cada um respondeu, à sua maneira, à pergunta quem traduziu a Bíblia para sua nação.
Quem traduziu a Bíblia para o português? A história de João Ferreira de Almeida
João Ferreira de Almeida traduziu o Novo Testamento publicado em 1681 e grande parte do Antigo Testamento. Morreu antes de concluir o projeto, que foi finalizado por Jacobus op den Akker. Segundo a história da Bíblia em português da SBB, a Bíblia completa desse trabalho saiu em dois volumes em 1753. Almeida é, portanto, um nome central, mas não o responsável único por todas as traduções portuguesas.
ARC, ARA e NAA pertencem à tradição de revisões de Almeida. Uma revisão pode atualizar linguagem, corrigir escolhas e reconsiderar evidências textuais; não significa que Almeida tenha produzido pessoalmente cada edição posterior. Outras equipes elaboraram traduções independentes, inclusive em contextos católicos.
Além de Almeida, outros tradutores contribuíram para versões católicas, como a Bíblia de Jerusalém (edição brasileira completa de 1981), produzida por uma equipe de especialistas franceses e brasileiros, e a Bíblia Ave Maria (1959; iniciativa iniciada em 1957). Cada uma trouxe nuances teológicas e linguísticas próprias.
Outras traduções importantes em português: católicas e contemporâneas
Além da Almeida, o mercado brasileiro conta com diversas traduções que atendem a diferentes públicos. A Nova Versão Internacional (NVI), lançada em 2001, busca equilíbrio entre precisão acadêmica e linguagem contemporânea, sendo muito usada em igrejas evangélicas. A Tradução Brasileira (1917) foi um esforço ecumênico pioneiro, envolvendo batistas, presbiterianos e metodistas. Já a Bíblia King James Atualizada (KJA/BKJA), segundo a Abba Press e a Sociedade Bíblica Ibero-Americana, foi traduzida a partir do hebraico, aramaico e grego, preservando características do estilo clássico da King James inglesa; não é simplesmente uma tradução do inglês.
Há traduções voltadas à língua comum, como a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), descrita pela Sociedade Bíblica do Brasil como tradução por equivalência dinâmica ou funcional, e versões parafraseadas, como A Mensagem, de Eugene Peterson. Cada uma representa uma resposta diferente à pergunta: quem traduziu a Bíblia para as novas gerações?
Os desafios da tradução bíblica: fidelidade, linguagem e contexto
Traduzir a Bíblia envolve desafios enormes. O primeiro é a fidelidade aos textos originais em hebraico, aramaico e grego, que apresentam palavras com significados múltiplos e expressões culturais distantes. O tradutor precisa equilibrar a reprodução das formas do texto e a comunicação de seu sentido em outro idioma. Essa tensão está presente em todas as versões.
Diferenças de tradução podem envolver vocabulário, construções gramaticais, escolhas interpretativas ou variantes nos manuscritos. Uma formulação mais literal não é automaticamente mais clara ou mais correta em toda passagem. O prefácio e as notas ajudam a identificar a metodologia adotada e a razão de escolhas difíceis.
“Línguas originais” não significa acesso aos autógrafos
Os autógrafos são os manuscritos produzidos pelos autores; não dispomos deles. Traduzir das línguas originais significa trabalhar com textos em hebraico, aramaico e grego preservados por testemunhos e organizados em edições. A crítica textual compara esses testemunhos e avalia diferenças de leitura. Esse processo não elimina toda incerteza nem garante qualidade idêntica a qualquer tradução.
Como identificar a edição que você está lendo
Confira a sigla e o ano da edição, o nome da instituição responsável e a relação de tradutores ou revisores. Leia no prefácio de quais textos a equipe partiu e qual método declara usar. Nas notas, diferencie uma variante de manuscrito de uma alternativa de tradução: são problemas distintos. Também verifique o conjunto de livros incluídos, que pode variar conforme a tradição cristã.
Ao comparar duas versões, leia o parágrafo completo, não apenas uma palavra isolada. Uma diferença pode explicar melhor uma expressão antiga sem representar uma doutrina nova. Quando a divergência for relevante, as notas e a justificativa da comissão são mais úteis do que escolher a versão pelo nome mais conhecido.
Síntese
A história das traduções reúne trabalhos individuais, equipes e revisões sucessivas. Para responder quem traduziu uma edição específica, identifique seu projeto e seus responsáveis. Esse cuidado evita atribuir toda a Bíblia a um só tradutor e permite avaliar o método declarado, sem presumir fidelidade automática de qualquer versão.
Igor Zomer é o responsável pelo Portal Voz da Fé, um site dedicado à publicação de conteúdos sobre a Bíblia, personagens bíblicos, contexto das Escrituras e temas relacionados à fé cristã.

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